terça-feira, 13 de março de 2012

Autor do Mês de Março: Francisco Moita Flores

Quem sou eu? – Francisco Moita Flores

(1953...)

(Autobiografia inventada)


        Desde que me recordo de ser gente que gosto de observar tudo o que me rodeia, especialmente de observar a vida e toda a energia que ela tem.
        Venho de uma família pobre de camponeses. Vivíamos num monte, na estrada que vai de Moura para Barrancos e para a Amareleja. Cedo aprendi a gostar de ler e lia por causa das bibliotecas itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian. Trouxe do Alentejo um sentido de liberdade muito grande. A minha escola tinha o maior recreio do mundo. Quando saíamos da aula tínhamos o monte à nossa frente, um ribeiro ao lado, laranjais, caminhos enormes. Esse sentimento de liberdade, que era demorado, que não tinha automóveis, que não tinha medos, ficou-me como uma marca distintiva. Essa fome de liberdade. A minha juventude foi marcada pelos estudos (estudei em Moura até aos quinze anos. Depois, Beja.) e pelo 25 de Abril. Tinha vinte e dois anos e muitos sonhos. Vivia em Lisboa, onde concluí o bacharelato em Biologia, já em 1975. Neste ano tive uma breve, mas intensa, experiência no ensino secundário. Esta promissora carreira foi interrompida para abraçar uma outra, a da polícia e o mundo da investigação. Sempre gostei de investigar, de questionar, de mexer as águas. Entrei, assim para a Polícia Judiciária e pertenci a brigadas de furto qualificado, assalto à mão armada e homicídios, onde permaneci até 1990. Contactei de perto com a criminalidade violenta e vi quanto a vida, às vezes, se aproxima terminalmente da morte. Dediquei-me novamente ao ensino, mas em 92, estava novamente na polícia para proceder a estudos e avaliações do movimento criminal. Era um trabalho mais de assessoria e secretaria, que me proporcionou um conhecimento mais aprofundado do fenómeno policial e da própria criminalidade. Este ambiente, mais calmo, permitiu estudar, mais e sempre. Assim, licenciei-me em História, e doutorei-me pelo Instituto de História e Teoria das Ideias da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Depois, fiz Sociologia, especializando-me em Sociologia Urbana, e mais tarde em Criminologia no Instituto de Criminologia da Lausanne e depois na Sorbonne, onde acabei por lecionar.
        Entretanto e simultaneamente, o gosto pela leitura e pelos livros levaram-me, quase num imperativo, numa obrigação, à escrita. Gosto de o fazer com paixão e o que escrevo resulta essencialmente de dois fatores – da vida vivida e da vida dos livros que li e estudei. Por isso, tenho escrito um pouco de tudo: ensaios, crónicas, romances, guiões para filmes. Já agora, participei no programa televisivo Casos de Polícia, programa que teve (penso) o mérito de aproximar a vida dos polícias e da investigação policial da vida do comum das pessoas. Daqui até a vida pública ativa foi um passo. Aceitei o apoio de muitas pessoas que me encorajaram a dar a cara e a contribuir pelo bem comum. Por isso, como independente integrei as listas de candidatos às autarquias. Assim, de um dia para o outro vi-me à frente da cidade de Santarém, trabalho que exerço com espírito e a dedicação que sempre tive em tudo.
        Atualmente e além do trabalho na autarquia de Santarém, dedico-me ao que mais gosto, ao que me dá mais prazer – o fazer dos livros.
Tenho aqui algo que gostaria de dizer: “Às vezes, quando me deparo com pessoas belicosas, sobretudo as mais jovens, não há paciência... porque... a morte cheira mal, sabem? Os cadáveres cheiram mal. O que nos afasta da morte é o caminho que nos pode dar felicidade e permite que a gente se encontre de uma forma amistosa. (…) Aprendi uma coisa decisiva: não podemos perder um minuto da nossa vida, porque tudo é rápido e efémero. Devemos tentar fazer que a vida seja um minuto de construção de coisas que agradem aos outros e a nós também. A nossa relação com quem nos rodeia tem de ser pautada por aquilo que a morte nos tira: o toque com o outro, o corpo. A relação com o corpo. Morrer não é fechar os olhos e parar o coração. Morrer é a ausência do abraço e das palavras. Isso é que é morrer.”


OBRA:

Guiões
Obras literárias
Ensaios

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Concurso Nacional de Leitura

Alunos Apurados:


JOÃO BISCAIA, 11º C
ROSA APARÍCIO, 10º C
ANA RITA PINTO, 12º B


para participarem na 2ª fase do CNL, a ser realizada em local e data a definir pelo Plano Nacional de Leitura.

CARNAVAL 2012 NA BIBLIOTECA ESS


terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Sessão de divulgação da ação da AMI

No âmbito do projeto aler+ - Ler/Educar para a cidadania, as bibliotecas escolares dinamizaram sessões de esclarecimento/educação para os direitos humanos das quais destacamos a palestra com o Dr. Paulo Pereira, do Centro Porta Amiga de Coimbra, delegação de Coimbra da AMI.


terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Dia dos Namorados - S. Valentim 2012




Autor do Mês de Fevereiro: Almeida Garrett

Quem sou eu? – Almeida Garrett
(1799-1854)
(Autobiografia Inventada)
Nasci no Porto, mas criei-me, em Gaia, na liberdade da Quinta do Sardão, pertença do meu avô materno, em Oliveira do Douro. Essa existência livre acabou por marcar e definir todo o rumo da minha vida. A adolescência passei-a na Ilha Terceira (Açores) e foi por essa altura que tive a minha primeira experiência amorosa com Luísa Midosi, que tinha 14 anos e foi a minha primeira mulher – casámos em 1822.
Em 1816 mudei-me para Coimbra para estudar direito. Deixei-me envolver pelo espírito aventureiro e instável da academia e aí escrevi os meus primeiros textos, nomeadamente o Retrato de Vénus, que foi considerado um atentado ao pudor e, por isso, fui acusado de imoral. A minha irreverência e a ideologia libertária envolveram-me diretamente nas lutas liberais. Participei nos confrontos contra os miguelistas ou legalistas, opositores à nova carta constitucional. Após o golpe da Vilafrancada fui forçado ao exílio em Inglaterra. Este país era, já em 1823, um exemplo de liberdade e cidadania. Amadureci os meus ideais políticos e descobri Shakespeare, Walter Scott e outros autores. Visitei também castelos feudais e ruínas de igrejas e abadias góticas, vivências que iriam, definitivamente, influenciar as minhas opções literárias.
Em 1824 prossegui o meu exílio em França. Os dois anos seguintes viram nascer duas obras emblemáticas do romantismo: Camões e D. Branca. Em 1826 consegui regressar a Portugal e tive uma experiência jornalística, dirigindo o diário O Português e o semanário O Cronista.

1828 foi um ano dramático: regressou D. Miguel, o rei absolutista e, por isso, fui forçado novamente ao exílio, em Inglaterra. Além disso, perdi a minha primeira filha quase recém-nascida. Apesar destes infortúnios, publiquei a Adozinda. Por esta altura as vozes liberais em Portugal eram cada vez mais fortes e originaram a revolta. Saído de Inglaterra, participei no Desembarque do Mindelo e no Cerco do Porto (1832 e 33); acontecimentos que marcaram o início do fim do absolutismo em Portugal. Com a paz assegurada e com a criação da Carta Constitucional, dediquei-me, então, à vida pública e cultural. Participei nas Cortes e os meus discursos centraram-se no fomento de um Portugal mais progressista. Em 1843 realizei a famosa viagem de Lisboa ao Vale de Santarém, que serviu de inspiração para a novela Viagens na Minha Terra. Na cultura criei o Conservatório de Arte Dramática, a Inspecção-Geral dos Teatros, o Panteão Nacional e o Teatro Normal (actualmente, Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa). Mais do que construir um teatro, procurei, sobretudo, renovar a produção dramática nacional segundo os cânones já vigentes no estrangeiro. Assim entreguei-me de corpo e alma à produção de peças de teatro, nomeadamente, O Alfageme de Santarém, Um Auto de Gil Vicente, Frei Luís de Sousa (1843) e Falar Verdade a Mentir.         
Depois, com a vitória cartista e o regresso de Costa Cabral ao governo, afastei-me da vida política, apesar de ainda ter criticado, veementemente, a proposta de lei da imprensa, conhecida por “lei das rolhas”. Regressei à vida política em 51, na altura da Regeneração, e aceitei o título de Visconde e o cargo de ministro.
Para a minha história pessoal e íntima, contam-se as intensas relações amorosas. Depois da separação de Luísa Midosi (1835), iniciei uma relação com Maria Adelaide Pastor. Permanecemos juntos até à sua morte em 1841. Morreu, mas deixou-me a minha filha Maria Adelaide… Depois, em 1846 experimentei novamente o amor com Rosa de Montufar Infante, conhecida por Viscondessa da Luz, que me irá acompanhar até ao fim dos meus dias.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Autor do Mês de Janeiro: José Luís Peixoto

Quem sou eu
José Luís Peixoto
(1974)
(Autobiografia Inventada)

Comecei a escrever aos dezasseis anos e publiquei o primeiro texto no inimitável suplemento do DN Jovem e aí comecei a aprender a comunicar através da escrita e percebi o quanto isso poderia ser importante para mim. Nessa altura, decorria o ano de 1990 (nasci em 1974, na aldeia de Galveias, concelho de Ponte de Sor), nunca ponderara a hipótese de viver da escrita. Durante o ensino secundário, no Alto-Alentejo, contactei com a poesia de autores que ainda hoje são grandes referências para mim: Fernando Pessoa e seus heterónimos, Rui Belo — um poeta às vezes injustamente esquecido — e Herberto Hélder. O romance surgiu um pouco mais tarde e houve autores que tiveram uma grande importância, caso de António Lobo Antunes, Miguel Torga ou José Saramago. Entrei, depois, no Curso de Línguas e Literaturas Modernas (variante de Inglês-Alemão) na Universidade Nova de Lisboa e aí comecei a ver as letras e os livros através de um olhar mais pessoal. Após o fim do curso ainda trabalhei (pouco tempo) como professor – primeiro em Cabo-Verde, depois em Portugal, mas, em 2000, tudo se precipitou. Às minhas custas, publiquei Morreste-me (obra que escrevera nos anos anteriores); imediatamente a seguir, surgiu o romance Nenhum Olhar, que seria distinguido com o Prémio José Saramago. A partir daqui comecei a viver da escrita, porque é ela que me satisfaz e me completa. Escrevo baseado naquilo que conheço, porque não posso escrever sobre aquilo que não conheço. Mas isso não quer dizer que essa escrita seja exactamente um reflexo literal do que acontece. Tem é que ser certamente sobre aquilo que eu sei, e aquilo que eu sei é aquilo que eu vi ou aquilo de que eu, de alguma maneira, tomei conhecimento. Nesse sentido, acaba sempre por ser autobiográfico. Foi assim que acabou de nascer o meu último livro Abraço, obra assumidamente de memórias.


Obra
Ficção
            Nenhum Olhar
2007 - Hoje Não (revista Sábado)
                            Cal
2011 – Abraço (Memórias)
Poesia
2001 - A Criança em Ruínas
2002 - A Casa, a Escuridão
2008 - Gaveta de papéis
Teatro
2006 - Anathema (estreada em Paris).
2007 - À Manhã (estreada no Teatro São Luiz)
2007 - Quando o Inverno Chegar (Teatro São Luiz)

Textos para músicas 
2008 - Orfeu e Eurídice (uma adaptação)

Prémios 
Prémio Cálamo Otra Mirada, (Saragoça, Espanha),  2007.




Cemitério de pianos

Numa Lisboa sem tempo, entre Benfica e o centro, nascem, vivem, sonham, amam, casam, trabalham e morrem as personagens deste livro. No ventre de uma oficina de carpintaria aninha-se o cemitério de pianos, instrumentos cujo mecanismo, à semelhança dos seres que os rodeiam, não está morto, encontrando-se antes suspenso entre vidas. Exílio voluntário onde se reflecte, se faz amor, lugar de leituras clandestinas, espaço recatado de adúlteros, pátio de brincadeiras infantis e confessionário de mortos, é o espaço onde se encadeiam gerações.

Os narradores – pai e filho –, em tempos diferentes, que se sobrepõem por vezes, desvendam a história da família, numa linguagem intercalada de sombras e luz, de silêncio e riso, de medo e esperança, de culpa e perdão. Contam-nos histórias de amor, urgentes e inevitáveis, pungentes, nas quais se lê abandono, violência doméstica e faltas nem sempre redimidas que, no entanto, acabam por ser resgatadas pelo poder esmagador da ternura e dos afectos. Falam-nos de morte, não para indicar o fim, mas a renovação, o elo entre as gerações e a continuação: o pai – relação entre dois Franciscos, iguais no nome e no destino, por um gerado, do outro genitor – nasce no dia da morte desse primeiro Lázaro; o filho, neto do seu homónimo, morre no dia em que a sua mulher dá à luz.

José Luís Peixoto oferece-nos um texto mágico, no qual se cruzam, numa interacção fluida, diálogos cúmplices com a grande tradição da literatura portuguesa e universal.